Um corpo que não é mais esculpido pela moda

Por anos a moda ditou o corpo que as marcas deveriam mostrar, mas esse padrão está ficando de lado

Afirmar que a moda e beleza andam de mãos dadas é mais do que dizer o óbvio. Desde a época de modelos como Cindy Crawford, Naomi, Gisele até nossa era de Gigi Hadid e Kendall Jenner, o padrão de mulher criado pela área é: extrema magreza, pele branca e maiores que 1,75. Essa estratégia de ambas as indústrias é o que causa uma tamanha insatisfação na maioria das mulheres com seus corpos e aparência.

E não é à toa que distúrbios alimentares como anorexia e bulimia acontecem mais com mulheres (90% dos casos). E essa ditadura vai além, leva milhares de pessoas à salas de cirurgias e ao consumo frenético de cosméticos. As mulheres da sociedade se esforçam ao máximo para entrar nesse padrão.

Esse gosto duvidoso da moda por esse corpo inalcançável, para pesquisadora Valéria Brandini, não é considerado algo surpreendente, afinal, desde que o mundo é mundo, o corpo ideal é fabricado pela cultura. Na África, mulheres alongavam o pescoço e a cultura ditava isso como o belo para elas. No Japão, as chinesas amarravam os pés com fitas, para eles não passarem dos 10cm. As afegãs eram proibidas de mostrar seus rostos, sendo assim obrigadas a usar a burca.

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Foto: @braletteboutique

Mas não é pelo fato de que a criação de uma beleza padrão é algo cultural que nós devemos aceitá-la. Prova disso é até a Playboy colocando como capa da revista a blogueira Ju Romano. Então, nem nós, nem as novas marcas que estão entrando no mercado da moda precisam seguir o que foi ditado há anos. Como no caso da The Bralette Boutique, marca de lingerie da Júlia Theodoro, que há pouco mais de um ano faz roupas íntimas sob medidas e usa mulheres reais para sua publicidade.

As peças surgiram da necessidade pessoal da criadora e depois se expandiu para a ideia de atender todos os corpos. “Seria injusto aplicar padrões inalcançáveis pra mim e para as pessoas à minha volta, justamente na minha produção”, declara Júlia.

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Foto: @braletteboutique

A divulgação das lingeries em mulheres comuns, para Júlia, causa um bem estar mútuo, tanto para as mulheres que são fotografadas, quanto para as que veem as fotos. “Não quero que a cliente/usuária olhe a foto de uma menina extremamente magra e pense que a peça é linda, mas que não funciona pro corpo dela, ou ainda que ela precisa ter aquele corpo pra usar aquela peça”. E é vendo essas imagens e esse apoio ao corpo real que algumas clientes enviam fotos com o item que compraram, de forma totalmente espontânea.

Outra marca que procurou em seu público alvo as “mulheres fora do padrão” para fazer lingeries foi a Let It Be Intimate. Com o mesmo propósito de sob medida, a criadora Maria Fernanda Ramos Lento esclarece que não existe corpo perfeito ou imperfeito, apenas corpos diferentes, que pedem peças diferentes. A Let It Be também não trabalha com modelos de agência em suas fotos para venda dos produtos. “Por mais que essas modelos Victoria’sSecrets sejam MA-RA-VI-LHO-SAS, elas não correspondem à maioria de nós, ou seja, para quê criar e fotografar algo que sabemos que é bem provável que na gente não vai ficar igual às angels?” afirma a criadora da marca.

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Foto: @letitbeintimate

As meninas que compram da Let It Be Intimate também se sentem satisfeitas a ponto de fotografar e enviar as fotos como feedback. E, com base nisso, foi criada a #SelfieLetItBe, na qual as clientes se fotografam em qualquer lugar e mostram como ficaram lindas com o que eles criaram.

Fernanda confessa que, a princípio, mostrar a mulher real foi uma ideia que deu medo. Mas mesmo assim arriscou e hoje recebe diversos e-mails, inboxs e comentários positivos sobre a iniciativa. “E esse é o objetivo da nossa marca, é fazer com que você se sinta linda com o que possui, se tem algo que não curte no seu corpo, vamos embrulhar essa parte em rendas e tules maravilhosos e te ensinar a amar essa parte com você ama todas as outras!”

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Foto tirada por uma das compradoras da Let It Be Intimate e publicada pela loja

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